terça-feira, 19 de abril de 2011

Para ela




Um dia desses de manhã bem cedinho, ou melhor, de madrugada Ela abriu os olhos ao ouvir um barulho na porta, se manteve deitada, esperando... esperando... esperando... não era nada. Perdeu o sono e levantou, foi ao banheiro e deu de cara com o espelho. Parou. Lavou o rosto e sentou na privada para sua mijada matinal. Voltou para o quarto, o dia ainda não estava claro e Ela decidiu sair de casa e dar uma volta pelas redondezas. Respirou o ar do sol acordando com preguiça de levantar e ficou parada um tempo no meio da rua ouvindo o silêncio da madrugada. Voltou pra casa e olhou as horas: eram seis e sete. Pegou uma folha de papel e começou a escrever:
"Oi, eu sei que já faz tempo que você deixou de existir e não há nada que possa fazer você voltar. O passado nunca vai voltar a ser presente, mas é que as vezes me bate uma saudade daquele tempo em que o mundo era azul com bolinhas brancas e você não tinha com o que se preocupar, tudo era mais fácil. Sinto falta da sua inocência. De quando eramos a mesma pessoa. Eu mudei, e como mudei! Você foi embora e eu apareci. Agora tem outra querendo tomar o meu lugar, estamos juntas, mas a minha morte esta próxima, pra onde você foi? Eu tenho medo dessa outra... Será que vamos voltar?
É... a vida é uma constante mudança que acompanha o fluxo da terra, gira, gira, gira, gira...e a gente vai se reciclando... o seu eu já foi. O meu eu quer ir."
Para meu passado.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Texto sem pontos



Um dia desses em que nada se faz nada se diz nada se pede cheio de nada eu fico inerte na escuridão das palavras que o silencio pronuncia ouço uma música de amor apenas ouço e danço com os olhos rabisco o papel que continua em branco rabisco chuvisco olho no olho e flor no jardim bem mais vai mas vai mais mas mais mas mais mas nestas mais palavras sem significado apenas desenhadas no papel ocupando um espaço esquizofrênico desse universo verbal gritante sem pontos virgulas aspas parênteses sentido

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Lembranças


Manhã do dia 27.10.2010


Manhã. Sonidos. Ruídos. Martelos. Ferraduras. Me mantenho sentada no banco do Deart. Escuto a música que se mistura a construção.
Hoje o céu tem nuvens carregadas. A chuva que sai do aguador das plantas me chama. Calor. Me mantenho no banco pensando na vida.
Se não existe "Quem é" ou "Eu sou", mas "Quem está" ou "Estou", então quando perguntamos "Como você está?" queremos saber quem você é naquele momento.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Você sabe o que tem naquela placa amarela?



Chego a casa de minha tia avô e a primeira criaturinha com quem me deparo é a minha priminha que deve ter seus 4 anos (nunca sei a idade das pessoas). Ela olha pra mim e, antes mesmo de dizer oi, pergunta apontando para a placa na cerca elétrica:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
- Não. Respondo
- Cerca Elétrica. Perigo.
E logo depois olha pra minha mãe e diz:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
e depois pro meu pai...
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
e depois pro meu irmão...
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
E quando meus tios chegam ela corre e pergunta
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
E todos que chegam a casa ela recebe com o mesmo discurso.

Um certo momento ela segura minha mão e me leva pra um lugar próximo a cerca e pergunta:
- O que é aquele "X" com um esqueleto?
- É uma caveira dizendo que ali é perigoso.
Ela começa a ficar inquieta e bater nas pernas e eu acabo ficando sem ação.
- Perigo, só tem perigo...o que é perigo? eu não sei o que é perigo, por que não tem uma tartaruga? Por que tem uma caveira? Eu não sei o que é perigo, mas é perigo...
Eu fico de joelhos e dou um abraço nela.
-Calma Clarinha. Ó, perigo é uma coisa que machuca...
- E faz sangue?
- Isso mesmo...
Ela volta a ficar inquieta questionando a caveira e começa a criar uma história para aquilo.
- Por que se a gente tocar lá a gente vira um esqueleto? A gente vai acabar perdendo os dentes. E como que a gente vai comer sem dentes? Vai ficar todo mundo com cara de esqueleto, ai vai ficar todo mundo igual. Como eu vou saber que eu sou eu?
O que? de onde essa criança tá tirando essas perguntas? Eu fico sem resposta por horas, só escutando ela falar. Ela fala sem parar. Eu começo a ficar meio tonta com tantas indagações.
Após um tempo eu digo.
- Você não vai virar um esqueleto é só brincar longe da cerca que fica tudo bem.
Ela para.
Olha nos meus olhos por alguns segundos em silencio.
Olha pro lado e vê seus dois priminhos brincando.
Diz:
- Eles nem sabem o que é perigo.
E corre até eles e pergunta:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?

sábado, 22 de janeiro de 2011

O que eu quero?



As vezes eu me pego perguntando “o que eu realmente quero?” e a resposta é um silêncio. Um silêncio longo e profundo, que nada diz e ao mesmo tempo me diz tudo. É como se fosse uma resposta para tudo aquilo que todo mundo quer saber. Mas o que é que eu realmente quero nessa enigmática vida? Dessa previsível vidinha provinciana?

Fecho os olhos.

Respiro.

Eu quero estar cercada de árvores. De frente pro pôr-do-sol. Sentada na areia de uma praia deserta. Viajando sem destino com os vidros do carro abertos, o som nas alturas gritando “Viver é bom, nas curvas da estrada, solidão que nada”. Quero estar sorrindo com os meus amigos. Quero estar dançando num lugar desconhecido uma música que só eu posso ouvir. Eu quero ouvir os pássaros. Quero ouvir as ondas. Quero ver a lua. Eu quero sentir a liberdade que cada paisagem, cada grão de areia voando pelo caminho, cada onda, cada asa, enfim tudo aquilo que muitas vezes as pessoas esquecem de observar emana. E a cada visão, ou melhor, a cada sentido eu quero me sentir livre como uma estrela cadente que se joga no espaço, veloz.

Mas é só o silêncio que eu tenho. O belo, longo e profundo silêncio.

Vou andar pelas ruas e olhar para as flores e para as pessoas andando com seus cachorros e para o céu cheio de nuvens.