Sempre tive fascínio pelo céu... ia pela estrada com os
olhares hipnotizados nos tons de azul e nas formas das nuvens. O céu sempre me
chamou, me trouxe a liberdade que eu tanto desejo. Dessa vez, na estrada, a
paisagem que me puxou os olhares não foi a do azul, meu olhar estava mais
baixo. Me encantava com as formas das árvores e os tons de verde das plantas e gramados misturados com
os tons secos das montanhas. A árvore sozinha no alto da montanha verde viva
falou comigo palavras sem lógica, mas cheias de amor e beleza. O conjunto de
laranjeiras tinha um amarelo gritante num berro natural e minimalista. E o
conjunto de árvores que não sei a espécie, com um ar de filme europeu me
transportou para outro espaço bem longe de mim. A árvore seca acinzentada me
mostrava o silêncio do qual as pessoas tem medo, aquele silêncio que provoca o
tão difícil encontro com nosso eu. E os pequenos galhos e folhas saídos das
pedras me ensinavam que tudo é possível dependendo do nível de determinação que
se tem. Aquele campo verde com um lago
imenso, me lembrou do quanto sou pequena nesse mundo. Sou uma formiguinha perto
daquelas árvores de tronco grosso com raízes expostas e barrocas. Lembrei de Arnaldo Antunes me cantando: "As
árvores são fáceis de achar, ficam plantadas no chão"... Lembrei também da
árvore da parada do 52 perto da minha casa, em Natal. A árvore que dá sombra e acompanha
aqueles que esperam, que avisa aos ônibus que ali tem gente esperando. Aquela
árvore já me protegeu do sol do meio dia e já conversou comigo algumas vezes
quando a espera era longa. Lembrei da nossa longa conversa numa noite a uns 6
anos atrás.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Árvores
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Eles dois...
A areia era clara, calma, fria. O céu tinha um azul bem
aberto que se unia ao mar em dégradé. Eles estavam lá sentados na areia,
aproveitando a sombra da falésia cheia de raízes, terra e folhas. Estavam em silêncio olhando o mar e se
olhando através dos olhos do outro. Ela olhava suas feições, o desenho de sua
sobrancelha a beleza de seus cílios os tons de verdes dos seus olhos. Ele
olhava para ela e se voltava ao mar, levou o cigarro à boca. Puxou. Prendeu.
Soltou o ar e passou para ela, que puxou. Prendeu. Soltou suavemente olhando
para o mar com ele. Será que viam o mesmo mar? Ela passou para ele e o viu mais fino que
antes... à medida que soltavam o ar para o mundo, iam liberando suas almas para
vento. A matéria, aos poucos se afunilava. Não sei se a alma que voava ou se a
matéria que de tão fina e tão leve começou a ser levada pelo vento. O que sei é
que o vento carregou a leveza destes dois seres tomados pela liberdade do bem
estar. Voaram até a nuvem mais próxima
onde decidiram se acomodar para apreciar a vista. Ele trazia questões a ela que
ela não sabia responder, mas que gostava de ouvir –na verdade ela gostava de
escutar a voz dele tentando falar em espanhol com um sotaque que misturava
portunhol com italiano-. Eles se entreolharam sorrindo e ele se aproximou dos
lábios dela e lhe deu um beijo doce e cheio de carinho que aos poucos foi
ganhando força, chama, paixão. Eles estavam tão fortes que furaram a nuvem e
iniciaram uma longa queda livre. O beijo continuava cada vez mais intenso. E
eles continuavam a cair. Até que o pára-quedas se abriu e eles se olharam. Seus
olhos gargalhavam de alegria. Eles desciam leves. Voltavam à terra. Uma terra amarela e azul com uma musicalidade intensa.
Não sei se a música tocava no espaço ou em suas almas. O que sei é que dançavam
nus no espaço azul e amarelo
e riam
e corriam
e iam...
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Pensando com o mar
imagem: Rodrigo Benatti
Não se deixe abalar por estas plumas que fazem cócegas nos
teus pés. Não exploda sua paixão sem controle. Olho para o mar pensando no
abismo que me joguei, penso se foi bom e me digo que sim. É sempre bom voar,
mesmo que a queda seja intensa, dolorosa e longa. É sempre bom voar no escuro
dos seus olhos olhando os meus. Agora eu paro em frente ao mar pensando no
infinito azul. Não quero mais compreender
o incompreensível. Somos apenas seres viventes de impulsos nervosos e tensões osciladoras.
Não espero mais nada dos teus olhos fechados, que agora, quando abrem olham
para outra direção. Não espero nada do escuro. Não espero mais nada, só penso na
infinitude do mar.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Uma Conversa Para Uma História
- me conte uma história
- pro mais rápida que seja
- nossa... não tenho nenhuma em mente agora
- invente
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
- era uma vez um menino chamado joão
- uhm
- ele subiu numa árvore bem alta para ver o ponto mais longe que poderia alcançar sua visão
- e lá, bem longe ele avistou um ponto todo florido
- era uma menina com vestido de flores e uma margarida na mão
- ele desceu correndo e foi até ela
- mas quando chegou lá ela já tinha partido
- então ele voltou pra árvore gigante e voltou a procurar a menina do vestido de flores e margarida na mão
- fim
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
“Pequeno local escuro"
Um happening de autoria de Tadeusz Kantor:
Em todo o piso estão espalhadas massas de diários. Os diários estão dependurados em cordas como roupa, desde o teto até o solo, sobre o solo, em desordem. Pilhas de diários. No meio, uma banheira de ferro. Corre água fervendo, molha os montes de diários. Ruído de água, baforadas de vapor, nuvens inteiras de vapor. Diante da mesa uma mulher gorda passa os diários molhados. Joga baldes de água – a água corre por todas as partes, baforadas de vapor.
A mulher gorda molha os diários na banheira, passa os diários, grita, soletra, abre muito a boca, sílabas, vogais, consoantes, todo o alfabeto abc... números 1,2,3,4... as notas de solfejo dó, ré, mi... grita, joga água, canta, passa, baforadas de vapor.
Um alto falante, ruído confuso, entrecortado, informações, notícias políticas, locais, esportivas, criminais, jurídicas, previsão do tempo, enterros, casamentos, nascimentos, investigações policiais, arte. Cada vez mais vapor e gritos da gorda analfabeta.
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