sexta-feira, 29 de abril de 2016

Troncal 10


Estava na parada de ônibus quando te encontrei. Você chegou e foi direto olhar os ônibus que passavam ali. Não demorou muito, o Troncal 10 chegou e nós demos o sinal, chamando o ônibus. Eu entrei primeiro e sentei na janela ao lado de uma senhora. Você entrou, e primeiro ficou de pé. Logo sentou numa cadeirinha, ficando quase de frente pra mim. Não vi o momento em que sentou. Quando te olhei, já estava lá, olhando a janela e anotando em um pedaço de papel. Você olhava a paisagem do aterro do flamengo e escrevia em seu papelzinho. Eu fiquei te observando, pensando: O que será que ele está escrevendo? Será que é o que ele vê? Será que é o que ele imagina? Será o que ele imagina e vê? Ou será o que ele imagina que vê? Ou o que vê que imagina? A senhora já não estava mais sentada do meu lado. Nem percebi o momento que ela saiu. Estava concentrada em você, na sua escrita. Você tem uma letra tão miudinha. Parecia um dos personagens da minha imaginação. Tinha um jeito peculiar de morder o lábio inferior enquanto escrevia. Eu te observava escrever no papel, enquanto escrevia na mente esse conto. Eu observava seus detalhes, da sua barba por fazer bem desenhada, do band-aid no dedão do seu pé direito, da sua calça amarela, de como coçou o olho. Você observava a janela.
Você me olhou. Num susto olhei para a janela. Acho que um susto por ver que você era real, ou uma reação cotidiana do mundo em que vivemos, que tem medo dos olhos do outro. A gente se assusta quando nossos olhos encontram os olhos de um desconhecido. Mas você não era mais tão desconhecido para mim, mesmo não sabendo nem seu nome, nem de onde vem, nem seu signo. Mas sabia que tinha a letra miúda, gosta de calças de pano com cores, machucou o dedão do pé recentemente, que tem uma mania de morder o lábio inferior enquanto escreve, gosta de escrever e observar a paisagem (perto de tudo isso um nome não é nada). Voltei a te olhar e você ainda olhava para mim, não demorou muito, logo voltou sua atenção a sua escrita. Será que escreve sobre mim ou só se assustou com meu olhar? Pensei. O aterro acabou e o ônibus entrou em direção a lapa. Você ficou meio perdido. Nos olhamos de novo. Você guardou o papel na mochila. Colocou a mochila nas costas se levantando da cadeirinha e caminhou em minha direção, para a porta de saída do ônibus. Olhei para minha janela e senti você passar por mim. Desceu. Olhei seu caminho até que então...desapareceu.
E assim acabou mais um romance de ônibus.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sobre Aquilo Que Vi

Para Alexandre


Segunda, 30/06/2014

Uma vez li uma fábula em que um peixe virava homem. Hoje vi homem virar chuva escorrendo no espaço.
As mãos da chuva eram feitas de rocha fundida em placas tectônicas em movimento; o peito era feito de água-viva; e os pés, das raízes de um baobá. O resto era chuva dançando em pingos grossos de um temporal silencioso.
Os pontos luminosos do céu me indicavam caminhos não óbvios para o existir de minh’alma transeunte, e a chuva, que eu via fundida ao homem, levava meu olhar numa valsa incandescente.
Num espaço mágico, tão mágico como aquele, as possibilidades reverberam à existência daquilo que é visível, com cores de passagem, num instante transitório onde tempo e espaço são narrados pela ação.

E tudo vira poesia narrada pelo cruzeiro do sul e pela luz alaranjada e prateada e azul. E o silêncio grita a minha gratidão em poder presenciar essa existência revelada pela transitoriedade de ser em vida. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Árvores

 
Árvore do caminho. Foto: Josie Pessoa

  Sempre tive fascínio pelo céu... ia pela estrada com os olhares hipnotizados nos tons de azul e nas formas das nuvens. O céu sempre me chamou, me trouxe a liberdade que eu tanto desejo. Dessa vez, na estrada, a paisagem que me puxou os olhares não foi a do azul, meu olhar estava mais baixo. Me encantava com as formas das árvores e os tons de verde das plantas e gramados misturados com os tons secos das montanhas. A árvore sozinha no alto da montanha verde viva falou comigo palavras sem lógica, mas cheias de amor e beleza. O conjunto de laranjeiras tinha um amarelo gritante num berro natural e minimalista. E o conjunto de árvores que não sei a espécie, com um ar de filme europeu me transportou para outro espaço bem longe de mim. A árvore seca acinzentada me mostrava o silêncio do qual as pessoas tem medo, aquele silêncio que provoca o tão difícil encontro com nosso eu. E os pequenos galhos e folhas saídos das pedras me ensinavam que tudo é possível dependendo do nível de determinação que se tem.  Aquele campo verde com um lago imenso, me lembrou do quanto sou pequena nesse mundo. Sou uma formiguinha perto daquelas árvores de tronco grosso com raízes expostas e barrocas.  Lembrei de Arnaldo Antunes me cantando: "As árvores são fáceis de achar, ficam plantadas no chão"... Lembrei também da árvore da parada do 52 perto da minha casa, em Natal. A árvore que dá sombra e acompanha aqueles que esperam, que avisa aos ônibus que ali tem gente esperando. Aquela árvore já me protegeu do sol do meio dia e já conversou comigo algumas vezes quando a espera era longa. Lembrei da nossa longa conversa numa noite a uns 6 anos atrás.

    Antes, interpretava o meu fascínio pelo céu como uma manifestação do meu espírito sedento de liberdade e cheio de sonho (ainda vejo assim), a paixão pelo céu não se apagou, mas ao me deparar inteiramente cativada pela terra durante pouco mais de 6 horas de estrada fiquei curiosa quanto a essa nova percepção de espaço, seria uma nova percepção de mim? Será que a mudança de ares me trouxe outras mudanças? Meus desejos estão criando raízes? A terra me traz mais clareza de mim.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Eles dois...


A areia era clara, calma, fria. O céu tinha um azul bem aberto que se unia ao mar em dégradé. Eles estavam lá sentados na areia, aproveitando a sombra da falésia cheia de raízes, terra e folhas.  Estavam em silêncio olhando o mar e se olhando através dos olhos do outro. Ela olhava suas feições, o desenho de sua sobrancelha a beleza de seus cílios os tons de verdes dos seus olhos. Ele olhava para ela e se voltava ao mar, levou o cigarro à boca. Puxou. Prendeu. Soltou o ar e passou para ela, que puxou. Prendeu. Soltou suavemente olhando para o mar com ele. Será que viam o mesmo mar?  Ela passou para ele e o viu mais fino que antes... à medida que soltavam o ar para o mundo, iam liberando suas almas para vento. A matéria, aos poucos se afunilava. Não sei se a alma que voava ou se a matéria que de tão fina e tão leve começou a ser levada pelo vento. O que sei é que o vento carregou a leveza destes dois seres tomados pela liberdade do bem estar.  Voaram até a nuvem mais próxima onde decidiram se acomodar para apreciar a vista. Ele trazia questões a ela que ela não sabia responder, mas que gostava de ouvir –na verdade ela gostava de escutar a voz dele tentando falar em espanhol com um sotaque que misturava portunhol com italiano-. Eles se entreolharam sorrindo e ele se aproximou dos lábios dela e lhe deu um beijo doce e cheio de carinho que aos poucos foi ganhando força, chama, paixão. Eles estavam tão fortes que furaram a nuvem e iniciaram uma longa queda livre. O beijo continuava cada vez mais intenso. E eles continuavam a cair. Até que o pára-quedas se abriu e eles se olharam. Seus olhos gargalhavam de alegria. Eles desciam leves. Voltavam à terra.  Uma terra amarela e azul com uma musicalidade intensa. Não sei se a música tocava no espaço ou em suas almas. O que sei é que dançavam nus no espaço azul e amarelo
e riam
e corriam

e iam...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pensando com o mar

imagem: Rodrigo Benatti



Não se deixe abalar por estas plumas que fazem cócegas nos teus pés. Não exploda sua paixão sem controle. Olho para o mar pensando no abismo que me joguei, penso se foi bom e me digo que sim. É sempre bom voar, mesmo que a queda seja intensa, dolorosa e longa. É sempre bom voar no escuro dos seus olhos olhando os meus. Agora eu paro em frente ao mar pensando no infinito azul.  Não quero mais compreender o incompreensível. Somos apenas seres viventes de impulsos nervosos e tensões osciladoras. Não espero mais nada dos teus olhos fechados, que agora, quando abrem olham para outra direção. Não espero nada do escuro. Não espero mais nada, só penso na infinitude do mar. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Uma Conversa Para Uma História



    • me conte uma história
    • pro mais rápida que seja

  • há 10 minutos
    Josie Pessoa
    • nossa... não tenho nenhuma em mente agora

  • há 10 minutos
    Raissa Tatiane
    • invente

  • há 10 minutos
    Josie Pessoa
    • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    • era uma vez um menino chamado joão

  • há 9 minutos
    Raissa Tatiane
    • uhm

        • ele subiu numa árvore bem alta para ver o ponto mais longe que poderia alcançar sua visão
        • e lá, bem longe ele avistou um ponto todo florido
        • era uma menina com vestido de flores e uma margarida na mão

      • há 8 minutos
        Josie Pessoa
        • ele desceu correndo e foi até ela
        • mas quando chegou lá ela já tinha partido
        • então ele voltou pra árvore gigante e voltou a procurar a menina do vestido de flores e margarida na mão
        • fim

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

“Pequeno local escuro"


Um happening de autoria de Tadeusz Kantor:

Em todo o piso estão espalhadas massas de diários. Os diários estão dependurados em cordas como roupa, desde o teto até o solo, sobre o solo, em desordem. Pilhas de diários. No meio, uma banheira de ferro. Corre água fervendo, molha os montes de diários. Ruído de água, baforadas de vapor, nuvens inteiras de vapor. Diante da mesa uma mulher gorda passa os diários molhados. Joga baldes de água – a água corre por todas as partes, baforadas de vapor.
A mulher gorda molha os diários na banheira, passa os diários, grita, soletra, abre muito a boca, sílabas, vogais, consoantes, todo o alfabeto abc... números 1,2,3,4... as notas de solfejo dó, ré, mi... grita, joga água, canta, passa, baforadas de vapor.
Um alto falante, ruído confuso, entrecortado, informações, notícias políticas, locais, esportivas, criminais, jurídicas, previsão do tempo, enterros, casamentos, nascimentos, investigações policiais, arte. Cada vez mais vapor e gritos da gorda analfabeta.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Encenação III

Encenação III: Participe da minha vaquinha!

Pessoal, estou pagando a disciplina de encenação III e como muita gente sabe, nós temos que criar uma encenação e não ganhamos dinheiro para a montagem, sai tudo do nosso bolso, por isso peço a ajuda de vocês para que eu possa atingir o orçamento que preciso.Para quem viu o trabalho desenvolvido no ano passado e gostou, dá uma força ai pra gente continuar desenvolvendo o processo de criação. Quem puder ajudar me fara uma pessoa muito feliz. Obrigada!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Vontade



Sabe aqueles dias que a gente acorda depois de um sonho bom, que não se consegue recordar, mas a certeza de que foi bom é bem clara e a sensação boa -aquela sensação que lhe dá vontade de passar um dia inteiro com um sorriso no rosto como se tivesse acabado de gozar- permanece ali invicta, forte, cheia de vida? Você fica tentado lembrar o tal sonho e nada, não vem nenhuma vírgula sequer. Eu queria ter esse prazer de novo. O prazer de não recordar o sonho apenas sentir o gozo dele.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

2012 será o fim?



Dizem por aí que, segundo o calendário Maia, o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro de 2012, mas será que vai mesmo? Também diziam que o início do século XXI seria o fim, pessoas se mataram, gastaram todo o seu dinheiro e tudo mais. E 2012, se o calendário Maia acaba ai, quem garante que o motivo é este? Por que o fim do mundo? Não pode ser o fim de uma era?  De qualquer maneira é um fim, mas nós vivemos fins todos os dias. O final é inerente a cada história vivida, ele começa a existir a partir do momento que o começo se faz. Esse medo do fim do mundo na verdade é o medo da morte. Não adianta dizer “eu não tenho medo de morrer, blábláblá, todo mundo morre” TODO MUNDO (até os que vêem na morte a verdadeira e inteira libertação) TEM OU POR ALGUM MOMENTO NA VIDA JÁ TEVE MEDO DE MORRER, e é esse medo do fim que faz com que o globo repórter e todas as mídias de massa rondarem o mito de 2012.
No calendário Maia nunca foi dito “o mundo vai acabar em 2012”, mas sim o fim de um ciclo e fim de ciclo todo mundo vive todos os dias.  A partir do momento que nós existimos ficamos presos a esse fio de moebius que é a vida e a única coisa que fazemos é passar por esse fio todas as manhãs ao acordar até ele ser cortado. O lado bom dessa história que tem várias pessoas por ai dizendo que vão festejar no dia 20 de dezembro de 2012. A festa da libertação. Eu acho que deveríamos comemorar o ano todo fazer uma espécie de carnaval que durasse até a hora do possível fim, afinal segunda aquela produção hollywoodiana que quase todo mundo assistiu (digo quase, porque eu não vi) todos nós morreremos de fome ou de frio ou afogados ou tudo isso junto e no escuro, diga-se de passagem.
Pois bem se o fim vai chegar de qualquer, seja no mito, seja na morte, seja no ciclo... O remédio é aproveitar bem o início o e meio e viver aquela frase super clichê, mas super saudável: “carpe diem”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011




Um dia assim como este, de sol... eu em casa.
Um dia assim como este, sem chuva... eu em casa.
Um dia longo e quente... chovendo em mim.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Corpo Poético - Uma história que é difícil de desnvolver



Trecho do relatório para a disciplina de pedagogia do corpo

Era uma sexta-feira dia quatro de março de 2011, acordei sem me espreguiçar, com o corpo cheio de pressa para ir à aula de pedagogia do corpo, cheguei cedo. Este foi o dia em que fui apresentada a máscara neutra, ao vesti-la acabei preenchendo todo o meu corpo de tensão, sufoco e medo. Era o medo da descoberta de um mundo que havia dentro de mim e que eu antes não prestara atenção. A cada dia descobria algo novo, era como se fosse apresentada mais uma vez àquela máscara, era uma escrita em um livro cheio de páginas brancas onde cada página era um dia, e uma não se ligava a outra, porém era a continuação da anterior.

[...]

Essas páginas, muitas vezes já repletas de palavras que serão reescritas, vão formando este ator que não só acredita ou identifica-se, mas interpreta como diz Lecoq em seu livro O Corpo poético. E interpretar não é demonstrar, é se fazer entender, e para isso é preciso que o ator se auto-interprete, se conheça, tenha consciência do seu corpo. É preciso que o ator entenda que poética existe dentro de si, e para isso é necessária a neutralidade, pois não se escreve poesia em um papel cheio de informações, assim não há espaço.

Os exercícios iam sendo passados sexta após sexta. Perguntas iam surgindo, mas não havia uma resposta objetiva para nenhuma delas. “Como é ver algo inesperado dentro daquilo que eu já estava observando?” me perguntava, toda vez que começava e terminava de executar o exercício de olhar um barco no horizonte. Às vezes fechava os olhos antes de vestir a máscara pra tentar perceber que barco era aquele, mas no momento em que vestia a nova face e me virava para o restante da sala, me esvaziava de imagem e ocupava toda minha mente de cuidados: Cuidado com o grupo, cuidado com os pés, cuidado com o dedinho da mão direita, cuidado. Ficava tensa. Nunca pensei que fosse tão difícil imaginar. Chegava á frente de todos e começava a observar o horizonte, mas como posso observar o barco no horizonte se mal posso ver o horizonte? Não basta pontuar, mudar o grau de energia, o ator tem que ver e fazer o outro ver junto com ele, caso contrário não há comunicação, não há poesia.

[...]

A comunicação corporal não se dá em prosa, se dá em poesia. O ator deve ser como disse Aurora “(...) As que falam como uma novela, em vil prosa, são essas moças românticas e pálidas que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou a poesia que brilha e deslumbra!” (p.21)[1].O ator deve brilhar com o mínimo de esforço, deve fazer a sua poética transparecer.

[...]

Hoje, chegando ao fim da disciplina sinto como se meu aprendizado esteja apenas começando. Olho pra trás e vejo um caminho com mar, cais, navio, horizonte, areia, floresta, montanha, deserto e um sol, tentando se pôr no fim para que um novo começo chegue.



[1] ALENCAR, José de “Senhora”. Editra Martin Claret- outono de 2003



terça-feira, 10 de maio de 2011

Vous venez souvent ici? ou Um sonho com cheiro de fossa



Numa casa abandonada com as escadas quebradas, um corpo caído apenas respirava. Era um alguém, não lembro o sexo, não lembro o rosto. Tenho apenas a lembrança do som que entrava e saia se sua boca. Não disse nenhuma palavra e manteve os olhos focados nos meus. Eu não me movia, estava em estado de choque, não sei o porquê, sempre fui de agir. Eu parada e o corpo respirando. Observei o movimento de sua barriga inchando e esvaziando, inchando e esvaziando. A casa tinha um cheiro de fossa estourada, mas após 1 hora parada em frente ao alguém o cheiro sumiu.
Ele me deu uma flor, eu sorri e começamos a dançar pelo salão. A valsa me dava uma sensação leve, me senti voando pelo espaço. Lá de cima olhei para todos e comecei a sorrir. Soltei as pétalas do talo, que caíram num turbilhão incensando o lugar. Soltei o meu par.
O alguém continuou a respirar, querendo dizer algo, mas eu não conseguia compreender. Vo- vo- vous v- venez souvent ici? Não entendi uma só parole. Estava confusa. O que disse? Respondi e alguém falou Vo- vo- vous v- venez souvent ici? O cheiro de fossa voltou e eu ainda não estava entendendo nada do que saia da boca daquela pessoa.
La mer était bleue e as ondas tão fortes, que o afogamento era inevitável. Foi então que perdi o ar e fiquei com os pulmões cheios de água. Cai numa casa abandonada com as escadas quebradas, um corpo caído apenas respirava. Era um alguém, não lembro o sexo, não lembro o rosto. Tenho apenas a lembrança do som que entrava e saia se sua boca. Não disse nenhuma palavra e manteve os olhos focados nos meus. Eu não me movia, estava em estado de choque, não sei o porquê, sempre fui de agir. Eu parada e o corpo respirando. Observei o movimento de sua barriga inchando e esvaziando, inchando e esvaziando. A casa tinha um cheiro de fossa estourada, mas após 1 hora parada em frente ao alguém o cheiro sumiu.
Virei água e vento e corri pela terra com a leveza do vento e o peso da água

terça-feira, 19 de abril de 2011

Para ela




Um dia desses de manhã bem cedinho, ou melhor, de madrugada Ela abriu os olhos ao ouvir um barulho na porta, se manteve deitada, esperando... esperando... esperando... não era nada. Perdeu o sono e levantou, foi ao banheiro e deu de cara com o espelho. Parou. Lavou o rosto e sentou na privada para sua mijada matinal. Voltou para o quarto, o dia ainda não estava claro e Ela decidiu sair de casa e dar uma volta pelas redondezas. Respirou o ar do sol acordando com preguiça de levantar e ficou parada um tempo no meio da rua ouvindo o silêncio da madrugada. Voltou pra casa e olhou as horas: eram seis e sete. Pegou uma folha de papel e começou a escrever:
"Oi, eu sei que já faz tempo que você deixou de existir e não há nada que possa fazer você voltar. O passado nunca vai voltar a ser presente, mas é que as vezes me bate uma saudade daquele tempo em que o mundo era azul com bolinhas brancas e você não tinha com o que se preocupar, tudo era mais fácil. Sinto falta da sua inocência. De quando eramos a mesma pessoa. Eu mudei, e como mudei! Você foi embora e eu apareci. Agora tem outra querendo tomar o meu lugar, estamos juntas, mas a minha morte esta próxima, pra onde você foi? Eu tenho medo dessa outra... Será que vamos voltar?
É... a vida é uma constante mudança que acompanha o fluxo da terra, gira, gira, gira, gira...e a gente vai se reciclando... o seu eu já foi. O meu eu quer ir."
Para meu passado.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Texto sem pontos



Um dia desses em que nada se faz nada se diz nada se pede cheio de nada eu fico inerte na escuridão das palavras que o silencio pronuncia ouço uma música de amor apenas ouço e danço com os olhos rabisco o papel que continua em branco rabisco chuvisco olho no olho e flor no jardim bem mais vai mas vai mais mas mais mas mais mas nestas mais palavras sem significado apenas desenhadas no papel ocupando um espaço esquizofrênico desse universo verbal gritante sem pontos virgulas aspas parênteses sentido

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Lembranças


Manhã do dia 27.10.2010


Manhã. Sonidos. Ruídos. Martelos. Ferraduras. Me mantenho sentada no banco do Deart. Escuto a música que se mistura a construção.
Hoje o céu tem nuvens carregadas. A chuva que sai do aguador das plantas me chama. Calor. Me mantenho no banco pensando na vida.
Se não existe "Quem é" ou "Eu sou", mas "Quem está" ou "Estou", então quando perguntamos "Como você está?" queremos saber quem você é naquele momento.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Você sabe o que tem naquela placa amarela?



Chego a casa de minha tia avô e a primeira criaturinha com quem me deparo é a minha priminha que deve ter seus 4 anos (nunca sei a idade das pessoas). Ela olha pra mim e, antes mesmo de dizer oi, pergunta apontando para a placa na cerca elétrica:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
- Não. Respondo
- Cerca Elétrica. Perigo.
E logo depois olha pra minha mãe e diz:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
e depois pro meu pai...
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
e depois pro meu irmão...
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
E quando meus tios chegam ela corre e pergunta
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?
E todos que chegam a casa ela recebe com o mesmo discurso.

Um certo momento ela segura minha mão e me leva pra um lugar próximo a cerca e pergunta:
- O que é aquele "X" com um esqueleto?
- É uma caveira dizendo que ali é perigoso.
Ela começa a ficar inquieta e bater nas pernas e eu acabo ficando sem ação.
- Perigo, só tem perigo...o que é perigo? eu não sei o que é perigo, por que não tem uma tartaruga? Por que tem uma caveira? Eu não sei o que é perigo, mas é perigo...
Eu fico de joelhos e dou um abraço nela.
-Calma Clarinha. Ó, perigo é uma coisa que machuca...
- E faz sangue?
- Isso mesmo...
Ela volta a ficar inquieta questionando a caveira e começa a criar uma história para aquilo.
- Por que se a gente tocar lá a gente vira um esqueleto? A gente vai acabar perdendo os dentes. E como que a gente vai comer sem dentes? Vai ficar todo mundo com cara de esqueleto, ai vai ficar todo mundo igual. Como eu vou saber que eu sou eu?
O que? de onde essa criança tá tirando essas perguntas? Eu fico sem resposta por horas, só escutando ela falar. Ela fala sem parar. Eu começo a ficar meio tonta com tantas indagações.
Após um tempo eu digo.
- Você não vai virar um esqueleto é só brincar longe da cerca que fica tudo bem.
Ela para.
Olha nos meus olhos por alguns segundos em silencio.
Olha pro lado e vê seus dois priminhos brincando.
Diz:
- Eles nem sabem o que é perigo.
E corre até eles e pergunta:
-Você sabe o que tem naquela placa amarela?

sábado, 22 de janeiro de 2011

O que eu quero?



As vezes eu me pego perguntando “o que eu realmente quero?” e a resposta é um silêncio. Um silêncio longo e profundo, que nada diz e ao mesmo tempo me diz tudo. É como se fosse uma resposta para tudo aquilo que todo mundo quer saber. Mas o que é que eu realmente quero nessa enigmática vida? Dessa previsível vidinha provinciana?

Fecho os olhos.

Respiro.

Eu quero estar cercada de árvores. De frente pro pôr-do-sol. Sentada na areia de uma praia deserta. Viajando sem destino com os vidros do carro abertos, o som nas alturas gritando “Viver é bom, nas curvas da estrada, solidão que nada”. Quero estar sorrindo com os meus amigos. Quero estar dançando num lugar desconhecido uma música que só eu posso ouvir. Eu quero ouvir os pássaros. Quero ouvir as ondas. Quero ver a lua. Eu quero sentir a liberdade que cada paisagem, cada grão de areia voando pelo caminho, cada onda, cada asa, enfim tudo aquilo que muitas vezes as pessoas esquecem de observar emana. E a cada visão, ou melhor, a cada sentido eu quero me sentir livre como uma estrela cadente que se joga no espaço, veloz.

Mas é só o silêncio que eu tenho. O belo, longo e profundo silêncio.

Vou andar pelas ruas e olhar para as flores e para as pessoas andando com seus cachorros e para o céu cheio de nuvens.